Ser artista imigrante em Portugal…
Posted by: Rede Eskilo in Portfólio on November 4th, 2010
O que há de semelhante entre um Bordado de Viana e uma máscara africana? Ambos são artefactos no puro sentido do termo. Ambos foram produzidos no âmbito de uma herança cultural que, apesar de diferente, merece igual destaque em matéria de património material. Ambos são, cada vez mais, realidade em muitos lares do Minho e do país, disputando igualdade de tratamento e um olhar aberto para as diferenças artísticas e culturais que existem actualmente em Portugal.
Vem isto a propósito da palestra proferida recentemente na Escola Superior de Educação por Rachel Mason, investigadora da Universidade de Leicester, sobre qual o contributo que a arte visual pode dar para a aprendizagem cultural.
Disse Rachel Mason que a cultura está em “contínua mudança” e que há quem defenda que as artes podem desempenhar “um papel importante” nesse processo de mudança. A investigadora britânica direccionou a sua atenção para o aspecto multicultural das sociedades modernas e deu exemplos de alguns casos verificados no estrangeiro, mas não fez qualquer comparação com que se passa em Portugal.
Ficou a saber-se, por exemplo, que vários países estão a tentar usar a arte para tratar os problemas sociais mais urgentes “porque os governos pensam que elas podem ajudar a resolver essas questões”. Em Portugal, sabe-se que os ministérios da cultura e da educação apoiam financeiramente projectos que promovam a integração de minorias.
O Observatório para a Imigração tem disponível, no seu sítio electrónico, um estudo de 276 páginas, datado de Maio de 2007, onde foi feito o estudo da integração dos artistas imigrantes na sociedade portuguesa.
Percursor do Fado viveu em Viana do Castelo
Posted by: Rede Eskilo in Portfólio on October 12th, 2010
No ano em que Viana do Castelo comemora o 750º aniversário da atribuição do primeiro foral, importa lembrar um nome esquecido das mentes culturais vianenses: Domingos Caldas Barbosa. Um homem que, no século XVIII, modificou para sempre o panorama da musicalidade popular através da introdução de um novo estilo de cantiga que serviu de percursora ao Fado, tantas vezes classificado de canção nacional.
As origens exactas do Fado são incertas e, até à actualidade, só foram produzidas três “histórias” deste género musical que passou por várias vicissitudes até chegar ao panorama actual onde a discussão se torna agora numa espécie de “Ovo de Colombo” onde não falta muito de paixão e um pouco de teimosia por parte dos mais tradicionalistas do Fado.
As géneses chegaram por mar e resultam de uma fusão que se terá registado no Brasil. A música tradicional portuguesa que foi levada para Terras de Vera Cruz nos séculos XVI e XVII, ligou-se ao Lundum (dança bailada nas festas da sociedade branca colonial referenciada desde o século XVIII), e as Modinhas (canções habitualmente interpretadas por negros ou crioulos, baseadas nas influências melódicas portuguesas).
UMA «OBRA-PRIMA» DESTRUÍDA POR SUCESSIVOS RESTAUROS NO SÉCULO XX
Posted by: Rede Eskilo in Portfólio on September 14th, 2010
Os painéis de azulejos da Igreja da Misericórdia, em Viana do Castelo, considerados, por muitos investigadores, a principal “obra-prima” de Policarpo de Oliveira Bernardes, um dos grandes mestres do azulejo do século XVIII, já não guardam o “brilho” de outrora.
Diversas intervenções realizadas no templo ao longo de todo o século XX destruíram um dos mais importantes legados do designado «Ciclo dos Mestres» do azulejo português que chegou até à contemporaneidade.
Este é o motivo pelo qual decidi desenvolver esta investigação. Restaurar não é destruir nem falsear, e a Igreja da Misericórdia é bem o exemplo de como as ideias introduzidas na história da arte pelo francês Violet-le-Duc, durante a primeira metade do século XIX (para quem reabilitar significava pegar no objecto e reconstruí-lo como provavelmente seria originalmente) podem deturpar o passado e levar a enganos de interpretação.
Património é tudo o que apela às emoções, memórias e sentimentos
Posted by: Rede Eskilo in Portfólio on September 10th, 2010
Emoções, sentimentos e memórias. Eis três conceitos chave que podem definir aquilo sobre o que cada um pensa acerca do que é património, seja ele real ou intangível. O que é que diferencia os moinhos de vento de Areosa do “Chico Fininho” cantado por Rui Veloso e que revolucionou a música portuguesa no início dos anos 80 do século passado? Nada. Ou melhor, ambos representam algo para o imaginário colectivo português, visto como um repositório de heranças culturais de bens tangíveis ou imateriais que se foram acumulando ao longo de séculos de existência de um pedaço de terra que se foi afirmando como uma pátria una e indivisível.
Património é um passado que é presente e tem futuro. Como refere a Professora Anabela Moura no texto “Uma Crítica Multicultural ao Ensino do Património Artístico nas Escolas Portuguesas do 2º Ciclo”, citando diversos autores, património não é somente “uma série limitada de trabalhos históricos”. Não é apenas com “o que vemos ou tocamos que podemos determinar, enriquecer ou melhorar o património”. Para Anabela Moura, “património é tudo quanto lemos, ouvimos, cantamos, dançamos, pensamos e imaginamos”.
Cada fragmento encontrado por um arqueólogo num qualquer lugar pode mostrar-nos o património do quotidiano de séculos passados. As igrejas, os pelourinhos, as casas abrasileiradas, as citânias mostram-nos legados materiais das várias fases pelas quais passou a cultura portuguesa ao longo dos séculos.
Mas há também o património intangível, ou seja, aquele que não tem suporte físico: os provérbios, os ditos populares, as festas, os contos, os dialectos. Significam modos de estar na vida, a forma como cada povoação vive o mundo. Há ainda a destacar as profissões tradicionais e as tradições e os costumes da Páscoa e do natal, por exemplo.
Em 2003, a Unesco definiu património imaterial como sendo aquele onde se incluem “as práticas, as representações, as expressões, os conhecimentos e as habilidades, assim como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais associados com ele, que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como património do seu património cultural”.
Falta estratégia concertada na promoção turística da cultura do Alto Minho
Posted by: Rede Eskilo in Portfólio on July 20th, 2010
Em 2005, a Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira decidiu dar um novo aproveitamento ao antigo mercado de peixe da localidade, transformando-o numa Casa do Artesão. No total, as obras de reconversão do edifício implicaram um investimento da autarquia na ordem dos 100 mil euros, permitindo a criação de um espaço totalmente vocacionado para a comercialização e promoção do artesanato local.
Para o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira, este novo espaço veio permitir «acolher os artesãos do concelho, e eventualmente de outros concelhos, num espaço de exposição que, embora não sendo grande, é um local digno». A autarquia pretendeu, desta forma, «contribuir para o desenvolvimento do artesanato» da região. José Manuel Carpinteira recorda que, «infelizmente, o artesão de uma forma geral não está muito activo», pelo que com a criação deste espaço a autarquia espera poder dar o seu contributo para reavivar os velhos usos e costumes da localidade. «Agora aguardaremos que isto seja útil para promover o artesanato e também para os próprios artesãos, que vão ter um local onde podem trabalhar e apresentar os seus produtos».
A Casa do Artesão situa-se na área de salvaguarda do centro histórico de Vila Nova de Cerveira, próxima do Baluarte de Santa Cruz. Para além da valorização estética do edifício, um imóvel que reflecte a arquitectura em ferro típica do século XIX, a intervenção contemplou o arranjo exterior envolvente ao baluarte, a reorganização do estacionamento automóvel e a preservação e plantação de elementos arbóreos. A muralha foi igualmente objecto de limpeza e melhoramentos pontuais.
E como a autarquia pretendia, a Casa do Artesão recebeu uma artista local, a estilista Helena Cardoso, que confecciona peças de vestuário “ecológicas” em que apenas recorre a materiais naturais e métodos tradicionais das serras d’Arga, Montemuro, Marão e Freita. O trabalho é integralmente feito à mão, seja no fiar, no tecer ou no bordar. De acordo com a estilista, o objectivo deste trabalho passa por «alterar mentalidades e promover a sobrevivência da economia rural».
Esta iniciativa da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira é um paradigma do bom acolhimento dos ensinamentos traduzidos na Carta Internacional do Turismo Cultural, produzida em 1999, no seio do ICOMOS (International Council on Monuments and Sites).
Os actos festivos e o lazer
Posted by: Rede Eskilo in Portfólio on April 26th, 2010
Quantos, na feira da Romaria da Senhora da Agonia, não terão preferido levar para casa um artefacto africano ou sul-americano ao invés de um Bordado de Viana? É um acto festivo de uma determinada comunidade, enquanto acto referencial da sua cultura, património, memória e identidade visto da mesma forma por um turista que a vem olhar nos seus momentos de ócio, ou lazer?
Um congresso internacional realizado recentemente no norte do país pela Turel sobre Turismo Cultural e Religioso dá uma visão algo enganadora da questão ao afirmar que “até agora, a peregrinação era um acto popular e o turismo uma dimensão reservada a uma elite…mas, o número não mudou a razão fundamental do viajante: caminhar à procura da sua humanidade.”
Lévi-Strauss, no livro Mito e Significado, escreve sem qualquer hesitação que “hoje em dia estamos ameaçados pela perspectiva de sermos apenas consumidores, indivíduos capazes de consumir seja o que for que venha de qualquer ponto do mundo e de qualquer cultura, mas desprovidos de qualquer grau de originalidade”.
Uma afirmação que ganha força à luz de um documento do Instituto de Turismo de Portugal, intitulado Touring Cultural e Paisagístico: 10 produtos estratégicos para o desenvolvimento do turismo em Portugal.
É dito nesse documento que as festas, feiras e romarias devem ser encaradas como uma forma de cimentar a atractividade nacional para o turismo cultural e paisagístico, mas não como um produto turístico em si mesmo.
Daqui se pode depreender que os actos festivos em Portugal, porque vistos como uma actividade cultural muito própria de cada comunidade, devem continuar a ser encarados como tal pela população residente mas podem ser olhados como actividades de lazer por parte dos turistas.
É que o hábito de “fazer a feira” ou “ir à festa” não é igual em toda a parte e o lazer é algo de que todos podem usufruir quando não estão ocupados com as actividades profissionais, muitas delas ligadas, de forma intrínseca, à cultura local.




